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O segundo

Um pouco sobre meu próximo livro, Retratos Letrados. Tá concorrendo no concurso da Publicações Iara. Façam figas, amigos!!!
http://publicacoesiara.com.br/2012/07/analu-andrigueti/

Queria que ele me erguesse, descolando num beliscão gostoso a pele das costas, perto do pescoço, como se faz com coelhos ou gatos filhotes, sabe? E sem dor nenhuma, me levasse numa altura que desse para ver o mundo todo, coisa de superhomem mesmo, muita água e algumas florestas. E girássemos ao contrário, várias vezes, enganando o tempo. Até começarmos a vida novamente.

Só queria brincar mais um pouco no quintal, caçar grilos, subir na goiabeira, conversar com os gatos.

Não quero tomar banho agora, está cedo para dormir.

Conta a história do sapo que caiu da festa do céu?

Avós duram sempre menos do que a gente gostaria.

Faço o que posso.
E rezo muito para o que não alcanço com as mãos nem com a razão.

Fim da Flip.
Um livro bom que acabou.

E se eu te cham…

E se eu te chamasse para uma cerveja?
Para o show do Nouvelle Vague no Cine Joia?
Para o último filme do Woody Allen?
Para conhecer minha cama nova?
Para uma noite e nada mais?

Às vezes eu não penso se compensa.

Preciso aprender a dizer não
para mim mesma.

TV Gazeta fez matéria sobre Walking Gallery. Movimento surgiu em Barcelona, há três anos. Artistas caminham carregando suas obras, uma forma de levar arte até o público, de chamar a atenção. Eu participei dessa segunda edição, no Centro, como primeira poeta. A próxima deve ser na Paulista, em agosto.

Veja a matéria: http://www.youtube.com/watch?v=fVIJmavQNZE&feature=plcp

 

 

 

 

 

 

 

 

E consegui arrastar o meu amigo, artista plástico e escritor, Luis Díaz!

Chiclete ruminado

A essa hora tenho certeza que você já passou a régua nos 90 e poucos dias que convivemos intensamente, pois conheci bem sua filosofia de enxotar o passado feito um cachorro sarnento e marchar sempre em frente sem nem espiar o que largou para trás. Enquanto eu continuo aqui, parada diante do semáforo que abriu, porque adoro ruminar chicletes mesmo depois de perderem o gosto e a cor.

Quem está certo? Insisto em citar Bandeira, mesmo após sua reprovação: nossos corpos se entendem, mas as almas, não. E fique à vontade para substituir alma por mente. Já que prefere ficar sempre no concreto, na calçada, na beirada. Enquanto eu… se vejo uma janela aberta, já boto as asas pra fora.

O tempo todo sabíamos do contêiner de diferenças entre nós. Tentamos esconder girafas em caixas de fósforos ou olhamos para o lado oposto quando uma delas escapava, atravessando a rua com seu pescoço enorme. Acreditávamos que o amor seria capaz de desintegrar girafas… e, por uma noite, realmente conseguimos! Atravessamos a madrugada em claro – olhos nos olhos, corpos febris, felizes, repartindo uma gota d´água no deserto. Existiu um amor pleno, superior, nirvana, ou qualquer outro nome transcendental que faço questão de desconhecer. Tivemos inúmeras noites e manhãs de sexo bom, mas nunca como aquela madrugada virada do avesso.

Lembra daquele sono profundo que eu tinha? Foi-se. A insônia intermitente roubou minha morfina onírica. Agora clareou tudo (até a noite): era cansaço da luta constante para fazer nossa história dar certo. Como um boxeador – ou lutador de MMA, que está mais na moda – que nunca desce do ringue, da arena, do octógono. Mesmo quando o adversário se ausenta. Eu permanecia com as luvas em guarda, saltitando de um lado para o outro, quase sem sair do lugar, sabe? Até perder a consciência e desmaiar de exaustão. Sempre tive dificuldade em entregar os pontos, largar o osso, cuspir o chiclete, saber a hora de retirar o time de campo ou abandonar o campo de batalha. Ainda que prefira a praia ao campo.

Ainda bem que não te levei para minha praia. Certamente te odiaria mais. Você insistiu em pisar na minha areia, em mergulhar no meu mar, mas eu tive um pressentimento. E consegui respeitar meu sexto sentido, somatizei uma doencinha qualquer e evitei a sua invasão ao meu quinhão de paraíso. Foi por pouco. Confesso que ainda desperdiço alguns segundos pensando no que poderia ter sido e que não foi: o sexo sob as estrelas na esquina onde o mar encontra o rio, seguido do meu cochilo, encolhida de lado, com você de conchinha. La petit mort.

Hoje, quando consegui vencer a Superbonder que grudava minhas costas à cama, depois de fritar a noite toda e dormir umas duas horinhas seguidas antes de apanhar nas orelhas do despertador, cambaleei até o banheiro para esvaziar minha bexiga que gritava por socorro há horas. Depois, olhei para o espelho e contemplei as olheiras ganhadas nesses dois ou três dias que se passaram desde o ridículo desfecho da nossa paixão – insanidade temporária, como bem definiu uma amiga outro dia. E quando comecei a pensar em alguma coisa, quando uma raivazinha de você começou a eclodir por todos os meus poros, ouvi o ruído infantil de incontáveis contas amarelas quicando no chão frio, plimplimplim. Outras missangas escorregando nas minhas curvas, por dentro da camisola, fazendo cócegas, e outras ainda enroscando nos cabelos desgrenhados, que você adorava alinhavar com mãos pequenas, mas firmes.

Olhei para o espelho novamente, depois do susto de sentir espatifar a guia de proteção que uso diariamente há mais de um ano. E da minha cara amassada emergiu um quase sorriso de alívio. A guia estourou para me proteger de outras arrebentações, de uma onda que me derrubaria se batesse de frente no meu peito.

Que bom que tenho terapia hoje.
Precisando botar a confusão pra fora
e trabalhar ela.

Que nem argila nos tempos da escola.

Primavera com Suzan

Peguei ontem o seu recado, Suzan. Você é terrível! Aqui não posso ter celular nem caixa postal, mas você descobriu um jeito. Muito mais eficaz. Mensagens visuais no fim do meu sono. Naqueles últimos minutos traiçoeiros, quando não sei ao certo se estou lá ou cá. Quando, apesar da miopia severa, enxergo perfeitamente.

Suzan, há quanto tempo não nos encontramos? Mais de dez anos, com certeza. E os seus olhos verdes (mar quando o sol nasce) rodeados de sardas e ruguinhas estrangeiras ainda me trazem uma calmaria tamanha. Bastou eu avistá-los e pronto. Abri um sorriso. E assim acordei, com o som da minha própria risada.

Do verde dos seus olhos veio o jardim da sua casa, rodeando a piscina azul, sempre limpa. Você tinha um capricho por aquele jardim. A grama sempre aparada, as flores sempre vivas, independente da época do ano. Na sua casa era sempre primavera. Um sol ameno aquecia nossos pés descalços passeando no fim do orvalho. Era tão bom tomar suco de maracujá com couve ao seu lado. Só você mesma para me fazer engolir uma coisa tão amarga sem fazer careta.

Chegou um ponto em que comecei a gostar mais da sua casa do que da minha. Já não me bastava ficar no quintal nem na área dos pacientes. Queria conhecer seu quarto, seu banheiro, sua varanda, seu guarda-roupa, sua intimidade. A cozinha eu já tinha visto uma vez, quando fui devolver o copo vazio para uma das empregadas. Elas sabiam que não deviam me deixar passar, mas simpatizavam comigo. Eu era quase normal. Ou sabia fingir ser.

E agora, Suzan? Achei que tinha conseguido te esquecer, mas você voltou para dentro da minha cabeça. O que você quer comigo, minha querida? Quer curar a minha doencinha, quer? Ou quer deitar no meu colo, como fazíamos depois da sessão? Eu ainda tomo aquele remédio que você me passou. O triângulo amarelo, bem pequeno, quase perco quando tiro da cartela todo dia à noite, antes de dormir. Tem que tomar com um copão cheio de água porque deixa a boca muito seca e aí não dá para beijar depois. Você lembra disso? E isso que você quer, um beijo meu para conseguir dormir?