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Archive for the ‘Cattleya labiata’ Category

Alegorias de Sade

carnaval

Desfilam, no Carnaval,
alegorias de Sade.

Duas vilãs nuas sobre o mastro,
musas aquáticas que atravessam
a carne do macho.

Línguas dormentes
acendem velas
que marcam o chão
e derretem cores.

Trois: a síntese semiótica sexual.
Triângulo nunca equilátero,
sem democracia possível.

As amigas de coxas grossas
batem uma aposta
enquanto ele adormece no jardim
abarrotado de cisnes.

O nobre ange bleu a decifrar
Baudelaire nos sonhos.
Para quê amanhecer?

Na janela,
pássaros desafiam a paciência delas
que berram pedindo: “cantem jazz”!

Uma marchinha de Carnaval,
finalmente.
Um violão qualquer
brada para que todos
abram as asas.

O trio vestido de suor
e amarelo
agora desvencilhado.

Recolhem latas vazias
e cinzeiros exagerados
de fumaça amanhecida.

Uma ducha quente
nas costas insensatas
da moça mais branca
que mergulha todas as manhãs.

Vozes e cabelos
fora do lugar.

Lábios agigantados
de um vermelho quase esmalte.

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Era uma correria. Navio de solteiros? Propaganda de telefone celular? Festa de Ano Novo na praia da moda na Bahia? Só gente bonita, colorida, vindo na minha direção. Mas não para conversar comigo, perguntar meu nome, me paquerar, abrir uma cerveja, me chamar pra dançar. Não! Eram dezenas de caras e meninas conversando entre si, uns jogando bola, casais se amassando, bebendo, rachando de rir, tocando guitarra, fumando um beck. Um fast foward jovem barulhento me atropelando. Eu, sozinha, de vestidinho florido, molhada de chuva, mar, ou lágrimas – tanto faz! – querendo entrar na onda boa. Mas invisível ou velha ou feia ou fora da rotação ou na contramão. Meus cabelos tristes, ensopados, pedindo atenção. Olhos de cachorro sem dono. Até que vejo você e dois amigos seus, com os dentes brilhando de tanta felicidade. E tenho vontade de arrebentar sua boca. Com um beijo.

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Eu sou a faca. Você me dá a mão para um passeio no Ibira? Ou prefere continuar dando voltinhas com seu pitbull encoleirado? Liberdade dói.

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Qual será o fantasma que vou ressuscitar hoje?
Devo chamá-lo para jantar ou para dançar?
Vou pintar as unhas de vermelho e comprar um vestido novo.
Assim vai parecer quer é a primeira vez.

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Queria que ele me erguesse, descolando num beliscão gostoso a pele das costas, perto do pescoço, como se faz com coelhos ou gatos filhotes, sabe? E sem dor nenhuma, me levasse numa altura que desse para ver o mundo todo, coisa de superhomem mesmo, muita água e algumas florestas. E girássemos ao contrário, várias vezes, enganando o tempo. Até começarmos a vida novamente.

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E se eu te chamasse para uma cerveja?
Para o show do Nouvelle Vague no Cine Joia?
Para o último filme do Woody Allen?
Para conhecer minha cama nova?
Para uma noite e nada mais?

Às vezes eu não penso se compensa.

Preciso aprender a dizer não
para mim mesma.

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Primavera com Suzan

Peguei ontem o seu recado, Suzan. Você é terrível! Aqui não posso ter celular nem caixa postal, mas você descobriu um jeito. Muito mais eficaz. Mensagens visuais no fim do meu sono. Naqueles últimos minutos traiçoeiros, quando não sei ao certo se estou lá ou cá. Quando, apesar da miopia severa, enxergo perfeitamente.

Suzan, há quanto tempo não nos encontramos? Mais de dez anos, com certeza. E os seus olhos verdes (mar quando o sol nasce) rodeados de sardas e ruguinhas estrangeiras ainda me trazem uma calmaria tamanha. Bastou eu avistá-los e pronto. Abri um sorriso. E assim acordei, com o som da minha própria risada.

Do verde dos seus olhos veio o jardim da sua casa, rodeando a piscina azul, sempre limpa. Você tinha um capricho por aquele jardim. A grama sempre aparada, as flores sempre vivas, independente da época do ano. Na sua casa era sempre primavera. Um sol ameno aquecia nossos pés descalços passeando no fim do orvalho. Era tão bom tomar suco de maracujá com couve ao seu lado. Só você mesma para me fazer engolir uma coisa tão amarga sem fazer careta.

Chegou um ponto em que comecei a gostar mais da sua casa do que da minha. Já não me bastava ficar no quintal nem na área dos pacientes. Queria conhecer seu quarto, seu banheiro, sua varanda, seu guarda-roupa, sua intimidade. A cozinha eu já tinha visto uma vez, quando fui devolver o copo vazio para uma das empregadas. Elas sabiam que não deviam me deixar passar, mas simpatizavam comigo. Eu era quase normal. Ou sabia fingir ser.

E agora, Suzan? Achei que tinha conseguido te esquecer, mas você voltou para dentro da minha cabeça. O que você quer comigo, minha querida? Quer curar a minha doencinha, quer? Ou quer deitar no meu colo, como fazíamos depois da sessão? Eu ainda tomo aquele remédio que você me passou. O triângulo amarelo, bem pequeno, quase perco quando tiro da cartela todo dia à noite, antes de dormir. Tem que tomar com um copão cheio de água porque deixa a boca muito seca e aí não dá para beijar depois. Você lembra disso? E isso que você quer, um beijo meu para conseguir dormir?

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