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Archive for junho \13\UTC 2012

Chiclete ruminado

A essa hora tenho certeza que você já passou a régua nos 90 e poucos dias que convivemos intensamente, pois conheci bem sua filosofia de enxotar o passado feito um cachorro sarnento e marchar sempre em frente sem nem espiar o que largou para trás. Enquanto eu continuo aqui, parada diante do semáforo que abriu, porque adoro ruminar chicletes mesmo depois de perderem o gosto e a cor.

Quem está certo? Insisto em citar Bandeira, mesmo após sua reprovação: nossos corpos se entendem, mas as almas, não. E fique à vontade para substituir alma por mente. Já que prefere ficar sempre no concreto, na calçada, na beirada. Enquanto eu… se vejo uma janela aberta, já boto as asas pra fora.

O tempo todo sabíamos do contêiner de diferenças entre nós. Tentamos esconder girafas em caixas de fósforos ou olhamos para o lado oposto quando uma delas escapava, atravessando a rua com seu pescoço enorme. Acreditávamos que o amor seria capaz de desintegrar girafas… e, por uma noite, realmente conseguimos! Atravessamos a madrugada em claro – olhos nos olhos, corpos febris, felizes, repartindo uma gota d´água no deserto. Existiu um amor pleno, superior, nirvana, ou qualquer outro nome transcendental que faço questão de desconhecer. Tivemos inúmeras noites e manhãs de sexo bom, mas nunca como aquela madrugada virada do avesso.

Lembra daquele sono profundo que eu tinha? Foi-se. A insônia intermitente roubou minha morfina onírica. Agora clareou tudo (até a noite): era cansaço da luta constante para fazer nossa história dar certo. Como um boxeador – ou lutador de MMA, que está mais na moda – que nunca desce do ringue, da arena, do octógono. Mesmo quando o adversário se ausenta. Eu permanecia com as luvas em guarda, saltitando de um lado para o outro, quase sem sair do lugar, sabe? Até perder a consciência e desmaiar de exaustão. Sempre tive dificuldade em entregar os pontos, largar o osso, cuspir o chiclete, saber a hora de retirar o time de campo ou abandonar o campo de batalha. Ainda que prefira a praia ao campo.

Ainda bem que não te levei para minha praia. Certamente te odiaria mais. Você insistiu em pisar na minha areia, em mergulhar no meu mar, mas eu tive um pressentimento. E consegui respeitar meu sexto sentido, somatizei uma doencinha qualquer e evitei a sua invasão ao meu quinhão de paraíso. Foi por pouco. Confesso que ainda desperdiço alguns segundos pensando no que poderia ter sido e que não foi: o sexo sob as estrelas na esquina onde o mar encontra o rio, seguido do meu cochilo, encolhida de lado, com você de conchinha. La petit mort.

Hoje, quando consegui vencer a Superbonder que grudava minhas costas à cama, depois de fritar a noite toda e dormir umas duas horinhas seguidas antes de apanhar nas orelhas do despertador, cambaleei até o banheiro para esvaziar minha bexiga que gritava por socorro há horas. Depois, olhei para o espelho e contemplei as olheiras ganhadas nesses dois ou três dias que se passaram desde o ridículo desfecho da nossa paixão – insanidade temporária, como bem definiu uma amiga outro dia. E quando comecei a pensar em alguma coisa, quando uma raivazinha de você começou a eclodir por todos os meus poros, ouvi o ruído infantil de incontáveis contas amarelas quicando no chão frio, plimplimplim. Outras missangas escorregando nas minhas curvas, por dentro da camisola, fazendo cócegas, e outras ainda enroscando nos cabelos desgrenhados, que você adorava alinhavar com mãos pequenas, mas firmes.

Olhei para o espelho novamente, depois do susto de sentir espatifar a guia de proteção que uso diariamente há mais de um ano. E da minha cara amassada emergiu um quase sorriso de alívio. A guia estourou para me proteger de outras arrebentações, de uma onda que me derrubaria se batesse de frente no meu peito.

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