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Archive for abril \13\UTC 2012

Primavera com Suzan

Peguei ontem o seu recado, Suzan. Você é terrível! Aqui não posso ter celular nem caixa postal, mas você descobriu um jeito. Muito mais eficaz. Mensagens visuais no fim do meu sono. Naqueles últimos minutos traiçoeiros, quando não sei ao certo se estou lá ou cá. Quando, apesar da miopia severa, enxergo perfeitamente.

Suzan, há quanto tempo não nos encontramos? Mais de dez anos, com certeza. E os seus olhos verdes (mar quando o sol nasce) rodeados de sardas e ruguinhas estrangeiras ainda me trazem uma calmaria tamanha. Bastou eu avistá-los e pronto. Abri um sorriso. E assim acordei, com o som da minha própria risada.

Do verde dos seus olhos veio o jardim da sua casa, rodeando a piscina azul, sempre limpa. Você tinha um capricho por aquele jardim. A grama sempre aparada, as flores sempre vivas, independente da época do ano. Na sua casa era sempre primavera. Um sol ameno aquecia nossos pés descalços passeando no fim do orvalho. Era tão bom tomar suco de maracujá com couve ao seu lado. Só você mesma para me fazer engolir uma coisa tão amarga sem fazer careta.

Chegou um ponto em que comecei a gostar mais da sua casa do que da minha. Já não me bastava ficar no quintal nem na área dos pacientes. Queria conhecer seu quarto, seu banheiro, sua varanda, seu guarda-roupa, sua intimidade. A cozinha eu já tinha visto uma vez, quando fui devolver o copo vazio para uma das empregadas. Elas sabiam que não deviam me deixar passar, mas simpatizavam comigo. Eu era quase normal. Ou sabia fingir ser.

E agora, Suzan? Achei que tinha conseguido te esquecer, mas você voltou para dentro da minha cabeça. O que você quer comigo, minha querida? Quer curar a minha doencinha, quer? Ou quer deitar no meu colo, como fazíamos depois da sessão? Eu ainda tomo aquele remédio que você me passou. O triângulo amarelo, bem pequeno, quase perco quando tiro da cartela todo dia à noite, antes de dormir. Tem que tomar com um copão cheio de água porque deixa a boca muito seca e aí não dá para beijar depois. Você lembra disso? E isso que você quer, um beijo meu para conseguir dormir?

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– Sabe aquele negócio que tem do lado da sua cama?
– Criado mudo?
– Isso, minha filha. Abre e fecha, num é assim?
– Sim, são as gavetas!
– Então, bota todos os seus problemas dentro da gaveta. E num abre nunca mais.

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