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Archive for março \31\UTC 2011

Embaixo das mesas corporativas,
as lixeiras alimentam-se de papel
(praticamente só papel
riscado, amassado, jornal de ontem, comunicado do RH, post it cheio).

Vez ou outra,
um Trident
cola na lateral da lixeira,
uma caneta sem tinta
repousa no fundo.

Semanalmente,
a lixeira corporativa devora
maçãs murchas
que aguardaram dias sobre as mesas
até serem trocadas por chocolates,
bolachas, pipocas, pães de mel.

Das guloseimas verdadeiras,
sobram apenas os papéis melados,
atirados nas lixeiras
que agradecem, satisfeitas.

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– Mãe, uma formiga me picou.
– Deixa eu ver. Não foi nada, vai passar.
– Mas tá coçando.
– Não coça, filha, se não o veneno espalha e aí vai coçar mais ainda.
– Olha, mãe, tá ficando vermelho.
– Eu não falei pra você não coçar?
– Mas eu não aguentei. E agora tá ardendo muito.
– Dá sua mãozinha aqui. Vamos colocar debaixo da água gelada, vai aliviar.
– É, melhorou. Mas ficou um pontinho vermelho.
– Isso se chama cicatriz. Ou poesia.

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Esqueci de tomar os remédios de novo. Acho que foi só ontem. Ou ontem e anteontem também. Não sei. Porque quando esqueço de tomar os remédios eu esqueço de muitas coisas. E aí vou esquecendo, esquecendo. Quando a cabeça começa a doer, eu lembro: tenho que tomar os remédios. E na sequência lembro que esqueci. Fico puta, me acho uma idiota! Como é que eu posso esquecer de tomar os remédios se eu já sei que quando eu esqueço de tomá-los eu fico com dor de cabeça? Parece que é de propósito, que eu viro criancinha e me rebelo contra o fato de ter que tomar os remédios. Mas se eu fosse criança mesmo, eu obedeceria. Ouviria os mais velhos, a médica, a minha mãe, a minha chefe, o marido… Ah, eu sou bem adulta! “Não tem desculpa, mocinha, você sabe muito bem o que está fazendo com você mesma”. Tenho que voltar pra casa e não esquecer de tomar os remédios. Estão na gaveta do criado mudo. Antes eu deixava na cozinha, mas esquecia de ir até lá à noite. Agora os remédios dormem comigo, ao meu lado. Só que a água continua na cozinha. Essa é a melhor desculpa que eu arrumei para esquecer de tomar os remédios: dissociei a água dos comprimidos! Bate uma preguiça antes de dormir, eu até lembro “tenho que tomar os remédios” mas aí eu penso “tomo amanhã de manhã”. E quando o amanhã chega – que é o hoje – eu saio atrasada, tomo banho de gato, como uma banana no elevador e vou lendo o jornal na rua, tropeçando. E os remédios? Continuam na primeira gaveta do criado mudo. Guardados de mim. Esperando que eu volte para casa exausta e esqueça-os novamente. Noite após noite. Sentindo dor de cabeça e aquela síndrome de abstinência horrorosa, quando alguém te chama e você vira a cabeça para o outro lado e parece que as coisas se fragmentam, sabe? Câmera lenta atrasando o pescoço, atrapalhando os pensamentos – que já nascem tortos.  Por que eu me maltrato assim? Ah, hoje eu pego a minha terapeuta de jeito. Ela vai ter que me explicar. E me lembrar de tomar os remédios quando eu chegar em casa. Ou vou instalar um filtro no quarto.

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Carnaval

Eu queria escrever sobre o Carnaval. Mas minha amiga Deborah Goldemberg  já escreveu (lindamente) parte do que eu queria contar. Então volto para o meu lugar, a “sonoterapia da preguiça carnavalesca”, e deixo aqui o link para quem quiser saber o que aconteceu com o verdadeiro Carnaval, cujo verbo diretamente ligado era “brincar” e não “desfilar”.

http://ressurgenciaicamiaba.blogspot.com/

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Convite

Dia 10 de março, quinta-feira, às 19h, participo do Clube de leitura de poesia com Claudio Willer, no Centro Cultural São Paulo.

Ele adianta trechos de seu novo livro, A verdadeira história do século XX (Editora Demônio Negro). Eu lerei poemas do meu livro de estreia, que vai para a segunda edição (!!!), A Matadora de Orquídeas (Edith, 2010).

PS: o livro pode ser comprado na Livraria da Vila ou no site da editora: visiteedith.com

Também participam: Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Chiu Yi Chich (Winner Chiu), Ariane Alves dos Santos, Conceição Bastos, Daniel Franção Stanchi, Lelia Romero, Marcelo Ariel e Neli Vieira.

Clube de leitura de poesia com Claudio Willer
Dia 10/3 – quinta-feira, às 19h
CENTRO CULTURAL SÃO PAULO: Rua Vergueiro 1000, telefone 3397 4002, Paraíso São Paulo – SP (Metrô Estação Vergueiro). Sala de Debates.
Entrada franca.
Duração: 90 minutos
O Centro Cultural convida a cada mês um poeta para leitura de poemas e uma conversa com o público. Após a apresentação haverá um sarau livre no qual todos os autores presentes poderão ler seus textos.

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Henrique a caminho

– Agora só falta o Seu Henrique.
– Ele está no caminho, ligou avisando.
– Faz mais de meia hora, já devia ter chegado.
– Parece até que você não conhece o menino, sempre atrasado. Ganhou barba cerrada, quase ruiva, mas continua igualzinho.
– Ele era o mais espoleta, sempre trepado nas mangueiras, jogando caroço nas galinhas, um terror.
– É verdade. E mesmo assim sempre foi o preferido da Dona Antônia. Mesmo depois dos gêmeos nascerem, o Henrique continuou sendo o principezinho da casa. Nunca vi uma mãe gostar mais do sobrinho do que dos próprios filhos.
– É estranho mesmo, mas a gente não deve se meter na vida dos outros. Nós temos que ser invisíveis, a Dona Antônia sempre fala isso. O bom empregado passa na sala e as visitas nem reparam.
– Lembra de quando o Henrique sumiu por dois dias?
– Claro, foi uma choradeira. Todo mundo achando que o menino tinha se perdido e sido sequestrado na estrada. E o capetinha tava no celeiro, dormindo do lado do potro novo, porque queria ver o cavalinho crescer, pra poder montar nele.
– Ele sempre foi um menino muito esperto.
– Olha lá, a Dona Antônia toda nervosa porque o Seu Henrique não chega.
– Ela já deu umas vinte voltas na mesa. Fica arrumando os guardanapos, vendo se os talheres estão bem lustrados. Já me chamou até pra tirar um grão de poeira do prato.  A prataria não saía da caixa de veludo vinho desde a morte do Doutor Gomes.
– É, hoje é um dia muito importante. Vem advogado de São Paulo, aquele monte de sócios que o Doutor Gomes tinha, os quatro irmãos e todos os sobrinhos dele… E nada do Seu Henrique chegar!
– Você acha que o Doutor Vitor e o Seu Lúcio vão brigar pelas terras?
– Ah, com certeza! Eu brigaria. Você não? Os filhos têm direito. A Dona Antônia podia dar metade do que é dela pro Seu Henrique e não fazer os meninos dividirem as terras com ele.
– Mas eles foram criados juntos, como irmãos de verdade. Você ainda não trabalhava aqui, mas quando o Doutor Gomes casou com a Dona Antônia, ela já cuidava do Henrique. A irmã dela morreu de parto. Coitadinho, ele é órfão.
– Você é muito boazinha. Não passa maldade na sua cabeça? Já reparou que o Seu Henrique parece um tanto com a Dona Antônia?

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A enxaqueca é um sinal de que o diabo existe.

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