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Archive for fevereiro \24\UTC 2011

O primeiro sintoma

O primeiro sintoma: a dificuldade matinal em escolher a roupa para trabalhar. Já lhe acontecera outras vezes, há tempos, quando ainda era uma adolescente birrenta. Achava que aos vinte e muitos anos não teria mais esse tipo de sensação, como se o travesseiro tivesse amassado seu cérebro durante a madrugada.

Depois contemplar com olhos perdidos o vasto interior do guarda-roupas cujas seis portas mantém sempre abertas, Joana pega, na primeira gaveta, uma calcinha estampada que não combina de jeito algum com o sutiã também cheio de cores e flores. Veste as peças desconjuntadas porque não é capaz de ligar os pontos. Paralisada diante do armário, não consegue sequer decidir se vai de calça, saia ou vestido. Não sente calor nem frio. Não sabe mais nada.

Ela não tem certeza do que causou tamanho terremoto em sua manhã. Talvez um pesadelo escabroso do qual não se recorde – ela acredita piamente que o inconsciente é sábio e a protege de suas invenções soturnas. A única decisão que consegue tomar não é sua, já que a empresa de consultoria onde trabalha não permite o uso de jeans, muito menos pela elegante gerente de Gestão de Pessoas (eufemismo para Recursos Humanos), que deve servir de exemplo para os demais funcionários.

Joana contempla o cabide repleto de calças azuis, das mais diversas lavagens – do baby blue ao black jeans – e sente saudades dos bons tempos de faculdade, quando usava 38 e ainda tinha que apertar o cinto. Sem dúvida, era uma das garotas mais bonitas da classe de Psicologia, entre as mais de 60 bem nascidas que desfilavam saias curtas e blusas justas na USP.

Os olhos azuis de Joana deixam os jeans em paz e voltam a dançar entre os cabides, os tecidos, os tons e suas inúmeras combinações. E ainda falta escolher a bolsa, os sapatos, as bijuterias, a cor do batom. O cérebro não acerta o passo, não se desenrola. E se fizesse uni-duni-tê? E se fechasse os olhos, esticasse os braços e pegasse qualquer roupa?

Boceja uma, duas, três vezes. Lacrimeja de tanto abrir a boca. Sente um sono estranho, que não é falta de dormir. Está exausta, mas acabou de acordar.

Por mais que se esforce, tentando desatar os nós de seu cérebro, Joana sabe que é melhor se entregar, usar a mesma roupa de ontem ou trocar apenas a cor da camisa. E admitir que amanheceu lá fora, mas dentro dela continua noite.

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Síndrome sem nome

Todo dia,
numa certa hora
– entre 18h e 20h -,
ele quase desmaia.

Tem uma violenta baixa de energia
(hipoglicemia psicológica?)
e parece que não vai mais aguentar
seguir a vida.

Respira com dificuldade,
sente as pernas e os braços pesados,
os olhos quase serrados
e a coluna dobrando ao meio.

Se soubesse alguma prece
ele rezaria para a noite
acabar com o dia.

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Autodiagnóstico

O primeiro sintoma:
a dificuldade matinal em escolher a roupa,
os sapatos,
a bolsa,
os brincos anéis relógios pulseiras.

O segundo sintoma:
papéis acumulados pela casa
nos lugares mais improváveis,
contas vencidas no criado mudo,
revistas velhas na mesa da cozinha.

O terceiro sintoma:
misturar o lixo reciclável com o não-reciclável
por pura falta de paciência
ou por desistir de acreditar
que meus atos podem fazer
alguma diferença no mundo.

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@analuandrigueti

to tentando tuitar.
serei sua seguidora.

***
Se o tempo não para
Por que o dia não passa?

***
Eu comeria
minha nutricionista.

***
Cansei
de ser.

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Hoje
você atrapalhou o meu dia
cavucou nosso passado
esfriou minha barriga
revirou-me do avesso
remexeu minhas certezas
declarou as suas taras
lembrou-me nossas safadezas
bagunçou o meu coreto
girou meu eixo.

E eu te agradeço.

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Despejo

Vou entrar com uma ação de despejo
contra você,
que habita meus sonhos
mesmo já tendo sido advertido
mais de mil vezes
de que não mora mais em mim.

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