Feeds:
Posts
Comentários

Archive for janeiro \31\UTC 2011

Quem quiser comprar A Matadora de Orquídeas dirija-se à Livraria da Vila ou fique sentado mesmo, esperando. Mas antes passe no site da Edith (editora do Marcelino Freire e Vanderlei Mendonça) e peça o livro.

Aproveite para ler (ou reler) a entrevista que dei para o ótimo jornalista do Estadão, Edison Veiga.

http://visiteedith.com

Anúncios

Read Full Post »

Não vim aqui brigar com você. Nem revidar as palavras duras, camufladas de poesia, que você insiste em disparar contra mim.

Já deletei o seu texto. Apaguei tudo. Mas não vou mentir: tem partes que ficam martelando, latejando, azucrinando dentro da minha cabeça. Você é foda com as palavras. Sempre foi assim, desde que te conheci, “ninfeta”, de vestidinho preto curto e coturno, na mesa do bar lotado, atrás do orelhão laranja e azul. Nosso amor é pré-Telefonica e pré-celular, já pensou nisso?

Pode me acusar de ser engraçadinho quando estou nervoso, fugindo da bronca, mas é o meu jeito. E você gostava dele, se divertia bastante com a minha filosofia de boteco, minha capacidade de falar um pouco de tudo. Mas passou. Pelo que li, você não quer lembrar de mim. Nem de nós. Tudo bem, é o seu jeito. Seu novo jeito de ser.

Eu pedi seu telefone. Você hesitou alguns segundos, mas logo pegou um guardanapo e uma caneta bic duas cores. Escolheu vermelho. Amor ou questão errada na prova? Uma semana depois você estava na minha casa, no meu colchão no chão, mexendo nos meus livros velhos, comendo sushi pela primeira vez e babando shoyo com saquê. E lendo poemas que me deixaram completamente atordoados. Achei que era cópia. Você sabia Ana Cristina César e Clarice de cor, podia ter roubado alguma coisa. Mas logo começou a escrever na minha frente, sobre as nossas coisas.

Já levantei sua bola demais. E lembrei de cenas lindas que você faz questão de desprezar. Então é melhor eu também fechar esse álbum de fotos comido por traças (aliás, muito engraçado os seus cupins). Só passei aqui, neste espaço público, para te dizer que continuo sendo o mesmo homem pelo qual você se apaixonou – e não o monstro inventado por você na nossa separação.

Continuo vendo filmes europeus (e argentinos também; você viu O Segredo dos seus olhos?), com os cabelos desgrenhados (mais porque acabei de acordar do que por transar), interessado em política internacional (o resgate dos mineiros no Chile, que coisa emocionante). E com a “ninfeta à tiracolo”. Só que agora é minha filha mesmo, de dois aninhos, a coisa mais linda. Juro que sosseguei, cansei de aguentar TPMs e chiliques. Só quero saber da minha pequena. E de uma “visita íntima”, sem compromisso, de vez em quando. Não é assim que vocês falam da gente? P.A.: que definição mais horrível para as antigas amizades coloridas.

Ah! Operei a miopia e não uso mais óculos. Por pouco tempo, já que a vista cansada é inexorável.

Read Full Post »

Friburgo

Eu prefiro não ouvir o choro deles nem a pergunta ridícula do repórter: “E agora que você perdeu toda a família e a sua casa, como está se sentindo? O que vai fazer da vida?”

Penso nos primos distantes que devo ter em Friburgo, lugar que não conheço mas ouço falar desde sempre. As memórias da minha avó, filha do suíço que casou com a nativa e vivia ali perto, entre cachoeiras e a mata fresca. Será que tinha enchente e deslizamento naquela época? Acho que não.

Quando penso que estou anestesiada ao atravessar todo dia a praça repleta de mendigos doentes, crianças sujas e mulheres loucas, olho a capa do jornal e vem uma enxurrada de dentro de mim.

O choro deles é meu também.

Read Full Post »

A habitante em mim

Tem uma mosca (ou duas, ou três) morando dentro dos meus olhos. Ela desfila entre os reflexos dos meus cílios e desafia minha capacidade de conviver com um ponto negro no meio da realidade sem perder a paciência nem ficar enjoada. Já ouvi diversas explicações científicas – envelhecimento precoce do olho hipermíope, prenúncio de enxaqueca, excesso de uso de computador -, mas nada me convence de que não é uma mosca verdadeira, daquela que enrosca nos cabelos, pretinha, que não pica mas dá medo nas meninas que tomam refrigerante no parque.

Meu pai me disse que tem um cavalo-marinho no olho dele. Bem mais bonito do que uma mosca. Eu queria mesmo era ter um golfinho ou uma borboleta azul. Mas não é a gente que decide qual bicho vai aparecer quando acordar e abrir os olhos, num dia qualquer, sem nenhum aviso prévio.

Alguém pode tirar essa mosca de dentro de mim? Como faço para ela se aquietar, parar de voar, adormecer, desaparecer? De onde ela veio e para onde ela vai (se é que vai)?

Os oráculos já não me escutam. Estou sozinha. Eu e minha mosca volante.

Read Full Post »

Mesmo sem te conhecer direito – nos vimos quatro ou cinco vezes na vida -, eu não vou com a tua cara. Acho você um chato, arrogante, espaçoso. Não acredito em uma palavra do que você diz. Jamais deixaria minha bolsa perto de você. Nem passe perto dos meus filhos!

Demorou para eu saber o que me incomoda tanto em você.

Senti arrepios e fechei a cara logo na primeira vez que nos cruzamos num bar. Lembro da sua camisa branca com alguns botões abertos, mostrando mais do que eu gostaria de ver: aqueles pelos acinzentados sem trajetória definida, espalhados pela flacidez que denunciou seu meio século de vida. Primeiro pensei que o que me perturbava era o seu jeito de intelectual-pavão-decadente, a voz mole e o olhar galanteador demais. Não, não era nada disso.

A segunda vez que nos vimos foi no aniversário de uma amiga minha, que também é amiga de uma amiga sua. Lembra? Você sentou ao meu lado e puxou papo. Eu logo pulei de cadeira e fui para o outro lado da sala. Não gostei da sua conversa, mesmo sem prestar atenção no que você falava. E o mais curioso é que os outros convidados – pessoas inteligentes e interessantes, com as quais eu convivo muito bem – ouviam atentamente as suas considerações, te adulavam, realmente gostavam da sua companhia.

Você pode até ser um cara bacana, mas não tem jeito: eu não te suporto.

Eu olhava para você e ficava imaginando seu apartamento escuro e mal localizado, com janelas emperradas e vidros empoeirados. Cheio de livros velhos, metade sobre as ditaduras na América Latina e os outros sobre a ex-URSS (há quantos anos não escrevo essa sigla, meu Deus!), China, Cuba e outras viúvas de Marx. Nada me interessava naqueles cômodos à lá Raskólnikov, com poucos móveis regidos por um sofá na sala, coberto por uma manta xadrez puída, e um colchão de casal no chão no quarto (eu também tive um na época da faculdade, quando dividia o apartamento com três amigas), com fronhas e lençóis desconjuntados.

Na última vez que nos encontramos, eu entendi tudo.

O seu charme de ex-fumante, gesticulando de forma levemente afeminada, cruzando as pernas fechadas, mexendo no cabelo que oras cai nos olhos, oras parece que acabou de acordar – ou de transar. O tira-e-põe dos óculos, com a armação torta de tanto assistir filme europeu deitado no sofá. O monopólio da atenção de todos ao seu redor. E a ninfeta sempre a tiracolo.

Você parece muito com ele. E eu não quero lembrar.

Read Full Post »

Promessas

Todo Ano Novo
faço as mesmas velhas promessas:
estressar menos com coisas pequenas,
ser mais generosa comigo mesma,
guardar dinheiro,
comer direito,
academia 4 X por semana…

Todo Ano Novo
sou um gato
que promete virar cachorro.

Read Full Post »

Depois do almoço rápido no quilo, fui “cotar”. Cotar é como a mulherada aqui do escritório chama aquela voltinha providencial pelas ruas do Bom Retiro para apurar preços nas vitrines, fazer a digestão e muitas vezes voltar mais leve para o trabalho – ainda que o peso seja retirado diretamente da carteira.

Passado o Natal, é nítido o esforço dos lojistas para vender. E eu deveria me esforçar para não comprar. Ignoro a fatura do cartão de crédito como quem esquece o guarda-chuva em casa. E sabe que vai chover.

Se você é mulher – e lê qualquer revista no cabeleireiro ou olha para qualquer vitrine de loja de sapatos –, deve saber o que é um Oxford. Se você é homem, acho difícil (e pode estar pensando “o que essa cidadezinha inglesa produziu de relevante, além de Lewis Carrol e sua Alice no País das Maravilhas?”).

No caminho de volta para o escritório, no fim da “cotação”, provei um Oxford em couro azul royal com telinha nude nas laterais. Achei o bico estranho, pontudo, meio pra cima, como nos tamancos holandeses ou no desenho do Aladin. Optei por outro, com bico arredondado e cor clássica – preto – só que com um toque de verão: furinhos. Se você é homem, vai achar que parece mais uma chuteira ou um sapato de boliche. E quase certeza de que preferirá a suavidade de uma sapatilha ao toque masculino que este modelo tem.

Antes era difícil encontrar em São Paulo um par de sapatos Oxford preto, de amarrar, básico. Hoje tem de toda cor, furadinho, aberto dos lados, com ou sem salto, com sola de couro, borracha ou plástico. Oxford por todos os lados: da rede popular Galinha Morta, por R$ 50, ao grãfino Shopping Cidade Jardim, por R$ 500.

A moda começou no inverno passado e atravessou a estação. Deram uma renovada nos modelos, é verdade. Incluíram detalhes coloridos (bicolores além do preto e branco), mais furinhos, estamparam o couro. Mas a cara e o conforto dos simpáticos sapatos Oxford continuam os mesmos. O melhor de tudo é que dá para trabalhar com eles. E olha que eu não entendo nada de moda.

Read Full Post »

Older Posts »