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Archive for maio \31\+00:00 2010

Leves lordoses
enfeitam corpos-plumas.

Nas japonesas temporárias,
coques repuxam os olhos brilhantes
de tanta maquiagem.

Os pés pisam para fora
no fim das pernas
embaladas em meias cor-de-rosa.

Em cada estação,
mais um pliê
entra no metrô.

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Ontem cedo o metrô estava cheio
de sono.

Bocas abrindo e fechando
no compasso das portas.

Cabeças aninhadas
em ombros alheios,

janelas confundidas com travesseiros.

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Já fiz de tudo para despistar
a sombra dele.

“Vire de costas”,
peço para que não me veja mais
porque cansei de querê-lo.

Da minha manga, não sai mais coelho
nem outro bicho de pele aveludada.
– Só espinhos -.

Sou o que sobrou de mim.

Amanheci ruim.
Na janela, um olho apontado quer saber
o que farei
quando não houver mais nada.

Caminhos fechados à vácuo.

Em cada porta, um aviso:
“Por aqui não se chega a lugar algum”.

A ponte que pendia
do braço dele até a minha perna
roupeu-se num jogo de futebol.

Os sinos emudeceram
na tristeza burra
daquele fim de noite sem fim.

A madrugada cheira à terra molhada
e suor velho de corpos rasgados.

Em vermelho, penso na fome que sinto
de um minuto para o outro.
(Comería-lo inteiro!)

Enjôo com o cheiro dele
que atravessa minha pele
vencendo os lençóis novos.

Exala água de vaso
de flores mortas.

Adoeço.

Os lábios, rachados.
Ninguém mais ganhará mordidas
nem beijos de boa noite.

Somente um tapa na cara pode salvar
essa manhã demolida.

Se ele ainda fosse vivo,
encerraria-o em meu calabouço.

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Pela primeira vez
comi caqui.

A casca me cativou.

Comi a cor do caqui.

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Prescrição

A terapeuta me ordenou
tirar metade do meu cérebro
e colocar na água com açúcar.

Preferi acalmar a massa cinzenta
num balde de cerveja gelada.

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Mocinha

Aos 15 anos,
você era uma criança
com peito e bunda.

Aos 16,
ganhou vida
a sua bucetinha.

Cortou os cabelos
aos 17.

Tornou-se maior de idade dirigindo
para as madrugadas de pó.

E seus 20 anos
enterrou no casulo
de um casamento.

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Na escada rolante
dou passagem
para as velhas lerdas.

Cedo meu lugar
– no banco marrom! –
para os velhos tortos.

Penso na minha velhice,
pegando metrô
sem carro
nem aposentadoria.

Melhor idade o caralho!

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Eu sou um peixe fora d´água
Um dragão que cospe água
Uma gaivota que voa n´água
Um automóvel movido a água.

Sou uma rosa que nasce n´água
Um abajur que acende n´água
Uma garrafa vazia d´água
Um peixe que sonha n´água.

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Confissão

Faz tempo que eu não escrevo
um poema do caralho.

Daqueles de prender a respiração
de arregalar os olhos
de impressionar palestinos e judeus.

Fico repetindo
repetindo
repetindo
meia dúzia de fórmulas:
misturando temas universais,
um punhado de sexo
e uma colherada de ódio.

Tenho vergonha
de enganar tanta gente
com versos fáceis
rabiscados no canhoto do cheque
para matar o tempo.

Será que serei uma Zibia Gasparetto?
Stephenie Meyer?
Elizabeth Gilbert?
Paulo Coelho?

Perdão, leitores,
a verdade é que perdi a mão
direita
e ainda não a encontrei
na baderna do meu quarto.

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Função

De que vale um poeta
para consertar a torneira pingando,
calibrar o pneu do carro
ou ensinar matemática?

 Ninguém precisa de um poeta.

Mas, se você me quiser,
posso lavar a alface
declamando Pessoa,
cuidar dos seus filhos
recitando Cecília,
te levar para a Lua
usando versos de Sade
ou inventar um mundo novo
com as minhas palavras.

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