27.05.2009
Visita ilustre no escritório
Ele é bem mais jovem do que eu
(Tem uns 70, eu acho)
É um garoto levado,
brinca com tudo:
com a gravata
com a medalha
com a palavra.

Ignácio de Loyola Brandão com “as meninas da Luciana” (Branco): Clarissa Amorim, Analu Andrigueti e Camilla Mortean
17.03.2009
Gravação do programa “Letra Livre”, na TV Cultura, com Lygia Fagundes Telles e Marcelino Freire.

- Lygia e eu
Ontem, meus olhos de peixe (vivo) congelaram no seu lenço vinho-magnético e na mecha branca que só gigantes podem ter. Pálpebras dissolvidas em suas palavras agridoces que estavam lá, exatamente onde meu querido Drummond disse que estavam. É claro que você tem a chave. Empresta para mim?
Você também subia em goiabeira, jabuticabeira. Era anjo de procissão com cabelos anelados de papelotes – igualzinha à minha mãe. Corria com a cachorrada, suja mesmo. É mais humana do que eu imaginava. E me olha direto nos olhos de peixe (vivo), mandando eu tirar forças de onde nem sei que tenho.
Reclama do trânsito a cada cinco minutos. O farol não abre, sobe na calçada, onde estão os guardas? E termina assim: “A perplexidade do homem na face da terra”. Ah, essa é você! Passeia por aqui, mas mora em outro lugar. Vê a mesma coisa que meus olhos de peixe (vivo), mas enxerga depois da curva. Confessa entregar-se às personagens que a conduzem pela mão, sempre em liberdade vigilante. Então são elas que têm a chave?
Depois do café da manhã, vou correr atrás do seu Verde lagarto amarelo, do feioso-que-transpira (mas pelo menos sabe escrever!) e morre de inveja do irmão bonitão.
A inveja… A inveja… A inveja (muda de entonação entre uma “inveja” e outra, sempre com ternura). É uma das coisas mais terríveis do homem. É o mais profundo. É o máximo. Eu sempre tive vergonha de pensar assim. Mas já que você permite: eu tenho inveja de você. Da sua beleza, da sua escrita, do seu chá das cinco.
Cuco, agora me deixa dormir mais um pouco. Eu ainda não entendi a estrutura da bolha de sabão, mas prometo pensar nisso amanhã. Depois do café da manhã.
Sobre a mecha branca, a travessura da presilha, brincando de infância. É disso que são feitos os poetas.