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Lógica – parte II

(poema reciclado, seguido de paráfrase materna de primeira qualidade)

Eu queria muito saber
por que os morangos nascem no chão
e as jacas, no alto das árvores.


***

A Jaca e o Morango

Por Mariza Andrigueti

Estava o Seu Morango, vermelho e brilhante, reclamando da vida porque vivia pendurado no topo de uma árvore frondosa:

- Deus, ó Deus, por que eu tenho de ficar aqui em cima o tempo todo, exposto à força do vento, se a Dona Jaca pode ficar lá embaixo esparramada no chão quente e seguro?

A jaca, que olhava para o céu azul, resmungava entre os dentes:

- Deus, ó Deus, por que o senhor foi tão injusto comigo, desprezando-me aqui no chão escaldante, cheia de espinhos a me penetrarem na carne, enquanto o Seu Morango vive na sombra, tranqüilo, lá no alto?

Deus, que é atento a todas as suas criaturas, pensou e repensou. Apontando o dedo indicador para o morango e para a jaca, ordenou:

- Seu Morango e Dona Jaca, ordeno que deste momento em diante suas moradias se invertam para que vocês sejam completamente felizes.

E a palavra do Senhor se fez verdade.
Ainda hoje existem poetas inconformados com jacas dinossáuricas penduras nas alturas e delicados morangos serpenteando na terra.

 

If – Rudyard Kipling

Enquanto meu poema não vem,
presenteio com “If” você.

Desconsidere – ou não – minhas anotações.
Mando a tradução de Guilherme de Almeida.

Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

A gente deu antes!

Hoje, no UOL!

Aqui, em agosto de 2009:

Batatinha no azeite,
salsicha-aperitivo.

Sanduichão de pão Pullmann
coberto com maionese
enfeitado com uma flor de tomate.

Tubaína quente
e coxinha fria.

Depois, o bolo
de abacaxi com ameixa
embrulhado em papel alumínio.

Ai que vontade
de ir em festa de pobre!

A dama da lotação

Almoço
com o moço
que voa
de van.

Janto
com o homem
que anda
de helicóptero.

Da janela,
vejo o moço
no ônibus 
partir do ponto.

Enquanto no terraço
o outro desponta
no heliponto.

Sequencia

Na verdade
eu queria
que você me desobedecesse.

E viajasse
viesse
interfonasse
subisse
olhasse.

Implorasse
entrasse
abraçasse.

Beijasse
abraçasse
beijasse
abraçasse.

Apertasse
encoxasse
equilibrasse
comesse.

Deitasse
fodesse
trepasse
metesse.

Abraçasse
dormisse.

E ao amanhecer
sumisse
de verdade.

Slow food

Enviar/Receber,
Enviar/Receber,
Enviar/Receber.

50 vezes ao dia.

Na caixa de entrada
nem um sinal.

No google,
quase tudo.

2.972 seguidores no Twitter,
amigas lindas no Facebook.

Orkut fechado,
sumiu do MSN,
não usa GTalk

SMS vai
e não volta.

Graham Bell se pergunta:
pra que tudo isso?

04:32

É Lua cheia.
A maré sobe
e a cabeça gira em falso.

A dor começa
perto da orelha e se esparrama
por campos verdes
depois da chuva.

Têmporas latejantes
já não suportam
a luz
como antes.

O corpo nu
tem suas preferências.

Como se fosse meio-dia,
os olhos se abrem
reticentes e pensativos.

Fixação

 Destruímos
aquelas fotografias bonitas
e baixas.

O espelho no teto
e a sua câmara
gravaram nosso sexo
ardente e triste.

Na luz vermelha
do laboratório,
suas mãos derretiam
os negativos na bandeja.

Fusão de corpos
transformados em nuvens
liquefeitas.

De que adiantou
a morte das imagens
se elas estão impressas
dentro de mim?

Carmem

De madrugada
ele tem certeza:

sente chuva ácida
gelando suas vísceras
e corroendo o coração.

Sabe que é o medo
de não encontrar
- nunca mais -
outra mulher
como Carmem

Bonita & inteligente,
que tope fazer de tudo
mas não sonhe
com o altar.

Mulher-bomba

Ela ia pra cama com qualquer um
que prometesse destruir sua vida
e explodir seus sonhos.

Era uma mulher-bomba,
carregava explosivos
entre as pernas
e queria engolir o mundo
com sua vagina.

Mas quando chegava em casa,
toda ensangüentada,
lavava a farda suja
e deitava nua na varanda.

Todo o ódio
explodia em nada
como uma ogiva desarmada.

A mulher-bomba
era uma menina qualquer.

Andava olhando pra baixo,
escondendo a ameaça
que ardia em seu coração.

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