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Call me L´Occitane

Sou mais que Lux, que Dove, que Granado.
Sou muito mais do que um sabonetinho ordinário.

Call me L´Occitane!

Call me L´Occitane,
isso mesmo,
meu nome é a marca do meu cheiro

que não se vende em farmácia
nem mercadinho de bairro.

Não sou atacado,
sou mercado de luxo no varejo:
uma fêmea com perfume exclusivo
para homens premiados.

Preparo banhos, escalda-pés e massagens
com cremes, óleos e ervas afrodisíacas.

Call me L´Occitane
e não se arrependerá
do que verá
e sentirá
por todos os poros.

Quero uma secretária

Quero uma secretária
que me deseje “bom dia” sorridente
inclusive às segundas-feiras chuvosas.

Que pague minhas contas,
pegue os e-mails
e apague os incêndios.

Não precisa ser linda,
apenas simpática.

Quero uma secretária só minha.

Que proponha soluções
ou coloque água com açúcar nos meus problemas.

Que saiba escutar mais do que falar.
Que goste do silêncio ou de música clássica.

Que organize minha vida profissional, pessoal, financeira
minha vida inteira.

Que faça ginástica por mim.

Quero uma secretária que cuide de tudo,
que cuide de mim,
sem chatice de mãe
nem cobrança de marido.

Samambaias

No pesadelo bom que tive,
presente de Ano Novo do meu inconsciente,
eu aparecia nua, sentada no chão,
da cozinha da casa onde cresci.

Chorando, babando, gritando,
me agarrava às samambaias
espadas de Ogum e outras plantas de terreiro.

Meu pai aparecia, impiedoso, aos berros:
- Filha, você não escuta a campainha?

A resposta, balbuciada,
“claro que não, pai. Não ouço mais nada,
não vejo mais nada, não sei mais nada”.
Preciso sair daqui.

(corta)

E no telefone celular, outro homem a gritar.
E eu pensando: preciso me livrar dele.
Preciso sair daqui.

(corta)

Chefe de cara feia.
Não faço ideia do que fiz de errado.
Estou por um triz.
Preciso sair daqui.

(corta)

Vou perguntar para a mãe de santo
por que todo terreiro tem samambaias?

O eterno retorno de Alice


Ela promete um retorno triunfal. Daqueles de tirar o fôlego. De revirar os olhos. A fantasia mais esplendorosa – ou o menor tapa sexo – do Carnaval.

Sim, atendendo a pedidos, Alice vai voltar! Minha colega andou avexada este ano, achou melhor ficar calada, quietinha no seu canto. Mas não se aguenta muito tempo assim, encasulada. Gosta mesmo é de fazer barulho, de falar palavrão, de botar a bunda na janela pra passar a mão nela. Você sabe como ela é. Vai dizer que não conhece aquela safada com carinha de anjo barroco?

Alice vai sair do ostracismo, vai ganhar blog novo, bem simplezinho, mas limpinho. É isso o que importa. Já está preparando os lençóis, a fronha, a ducha e todos os apetrechos da casa nova para receber os convidados. E as convidadas. Uma amiga dela, fiel escudeira, já se ofereceu para escrever também. Ou seja, você vai ler putarias de primeira (ou segunda, ou enésima), escrita por várias mãos. Ou dedos? Dedos são mais úteis e sensuais do que palmas das mãos. E são eles que seguram a caneta. E outras coisas mais… Deixo esse papo para Alice. Aqui é blog de família! Ou quase…

Prepare-se, porque Alice vai voltar a ativa – ou a passiva. Em endereço a confirmar.

Constatação

Se hoje sou graveto velho,
daqueles que esfarela com um sopro,
amanhã serei figueira
com raízes que ultrapassam calçadas.

Nada melhor do que um dia após o outro!

Concha

Menino franzino,
você reparou
que lá de cima
a Vênus de Botticelli
está completamente nua
e contempla
as tuas mãos desvairadas?

Nesse desfiladeiro de notas
em que você se enfiou,
na avalanche de dós
que te franze o cenho,
não é possível
um final feliz.

Mas lembre-se, menino:
a distância entre vocês
é de apenas
um longo veludo vermelho.

A moça branca saiu da concha
só para ouvir você.

Ontem fui num recital
no Municipal
e decidi:

Quero um piano de cauda
no meu quintal.

Sou o que sobrou de mim

Osso

Hoje tô um trapo, em frangalhos, escangalhado.

Um fiapo esgarçado, resto que rasteja, um bagaço no poço.

Um caco estilhaçado, fiasco fracassado. Hoje tô no osso.

Tudo por causa… daquele moço.

Quasar nude

O não-figurino. A não-coreografia. A não-música. A não-cor. A não-dança.

Estou cansada de tanta negação. Ontem fui  ao Teatro Bradesco, no Shopping Bourbon Pompeia, ver o balé Quasar. Fazia tempo que eu não via esta companhia, que gosto muito. Me decepcionei, porque esperava que os bailarinos se movimentasse de pé, e não deitados. Com roupas, e não de cueca, calcinha e blusas que pareciam pijamas, sempre brancos, beges ou “nude”, como a moda manda dizer.

Pelo menos o piso era deslumbrante: um tapetão quase branco – offwhite, gelo ou algo assim – fofo, daqueles gostosos de pisar descalço com pés molhados, saindo do banho quente.

Já vi Pina Bausch duas vezes, Corpo, Deborah Colker e outras trupes contemporâneas algumas vezes. Mas não entendo nada de dança, apenas gosto bastante. E está cada vez mais difícil assistir um espetáculo que vá além do break tropical, aqueles movimentos tortos, malemolentos, entre o robô e a boneca de pano, ao som de um samba-Céu com toques eletrônicos de fábrica. Os super bailarinos desafiam a lei da gravidade e tantas outras, mas muitas vezes parecem peixes fora d´água, agonizando na pia.

Adoro ver coxas e bundas e abdomes perfeitos engalfinhando-se no palco. Sim, desperta meu apetite sexual, amplia minha percepção sensitiva de mundo. E depois? O que os corpos embolados no chão querem dizer? Qual é o conceito? Se for a imagem pela imagem, vira um pornô de luxo, eunuco ainda por cima.

Ah! Gostei muito da iluminação, impecável, criativa, colorida. Mas é a mesma sensação de quando você sai do cinema, alguém te pergunta se gostou do filme e você só consegue dizer “A fotografia é maravilhosa”. Nas entrelinhas, algo como “o resto é uma merda”.

Sei que faz tempo que a arte é mais do que o retrato do belo, mas não custa harmonizar um pouquinho, né? Acho que estou ficando velha, ranzinza. Melhor assistir House em casa ou ler Pornopopéia.

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