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Que bom que tenho terapia hoje.
Precisando botar a confusão pra fora
e trabalhar ela.

Que nem argila nos tempos da escola.

Primavera com Suzan

Peguei ontem o seu recado, Suzan. Você é terrível! Aqui não posso ter celular nem caixa postal, mas você descobriu um jeito. Muito mais eficaz. Mensagens visuais no fim do meu sono. Naqueles últimos minutos traiçoeiros, quando não sei ao certo se estou lá ou cá. Quando, apesar da miopia severa, enxergo perfeitamente.

Suzan, há quanto tempo não nos encontramos? Mais de dez anos, com certeza. E os seus olhos verdes (mar quando o sol nasce) rodeados de sardas e ruguinhas estrangeiras ainda me trazem uma calmaria tamanha. Bastou eu avistá-los e pronto. Abri um sorriso. E assim acordei, com o som da minha própria risada.

Do verde dos seus olhos veio o jardim da sua casa, rodeando a piscina azul, sempre limpa. Você tinha um capricho por aquele jardim. A grama sempre aparada, as flores sempre vivas, independente da época do ano. Na sua casa era sempre primavera. Um sol ameno aquecia nossos pés descalços passeando no fim do orvalho. Era tão bom tomar suco de maracujá com couve ao seu lado. Só você mesma para me fazer engolir uma coisa tão amarga sem fazer careta.

Chegou um ponto em que comecei a gostar mais da sua casa do que da minha. Já não me bastava ficar no quintal nem na área dos pacientes. Queria conhecer seu quarto, seu banheiro, sua varanda, seu guarda-roupa, sua intimidade. A cozinha eu já tinha visto uma vez, quando fui devolver o copo vazio para uma das empregadas. Elas sabiam que não deviam me deixar passar, mas simpatizavam comigo. Eu era quase normal. Ou sabia fingir ser.

E agora, Suzan? Achei que tinha conseguido te esquecer, mas você voltou para dentro da minha cabeça. O que você quer comigo, minha querida? Quer curar a minha doencinha, quer? Ou quer deitar no meu colo, como fazíamos depois da sessão? Eu ainda tomo aquele remédio que você me passou. O triângulo amarelo, bem pequeno, quase perco quando tiro da cartela todo dia à noite, antes de dormir. Tem que tomar com um copão cheio de água porque deixa a boca muito seca e aí não dá para beijar depois. Você lembra disso? E isso que você quer, um beijo meu para conseguir dormir?

- Sabe aquele negócio que tem do lado da sua cama?
- Criado mudo?
- Isso, minha filha. Abre e fecha, num é assim?
- Sim, são as gavetas!
- Então, bota todos os seus problemas dentro da gaveta. E num abre nunca mais.

A dona da cura

Você chegou na minha casa
com olhos atrasados,
mortos-vivos,
que eu nunca tinha visto
tão de perto.

Tive certeza.

Olhos aflitos
- que não estão aqui -
tentam alcançar o corpo.

Você pediu para fumar.
Eu não tinha cinzeiro.

Pediu desculpas.
Pediu dinheiro.

Ofereci comida:
“tome um copo de leite pelo menos”.

Contou-me das contas cortadas,
dos 10 quilos perdidos,
da família que nem te olha na cara.

Meus olhos atônitos.
Seus olhos vazios,
anônimos.

Olhos sem olhar.

O menino da chupeta

A chupeta azul claro
tem um rosto
negro
nas beiradas.

Para não perder,
a mamãezinha amarrou um cordão
na blusa com um pregador de roupas
nojento
de madeira escurecida de tanta baba e mofo.

Olhos atentos
grandes e mudos,
e a chupeta só chup chup chup.

Falta comida naquela boca.

E a mamãezinha de vestido Geyzi
só na paquera com o cobrador.

O próximo Carnaval

O chapéu de paetê
e a estola pink aguardam, ansiosos,
o próximo Carnaval.

Continuam virgens,
com cheiro de novos,
não debutaram no bloco
como combinado por
Maria Augusta.

Todas as promessas de folia
vestindo o chapéu, a estola
e a fantasia,

Todos os planos de pular
os quatro dias
e sambar até o sol raiar

foram anulados sem pestanejar
quando Maria Augusta conheceu
um bom rapaz, Antonio Carlos,
na sexta-feira pré-Carnaval
num show de rock.

Resta ao chapéu de paetê
e à estola pink
repousarem enfeitando a sala
até uma festa a fantasia qualquer
ou o próximo Carnaval.

O seu verde

Esse teu poder
de enxergar além da conta,
de falar o que pensa
e de pensar além,

esses olhos verdes demais
capazes de desconcertar mulheres, homens e casais

contrastam com as palavras duras
que acertam em cheio
o vazio de todos nós.

Derrubam alguns.
Fortalecem outros.

Eu já aprendi a gostar
desse seu jeito
meio dândi – eterno menino – punk
que observa e sorve tudo
com radares únicos

e subverte qualquer obviedade
na velocidade de um piscar de olhos
verdes.

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